A ridícula ideia de nunca mais te ver. Vamos falar de Luto?

“A verdadeira dor é indizível, por que quando a dor cai sobre você, sem paliativos, a primeira coisa que ela lhe arranca é a palavra.” Rosa Montero

A morte coloca a gente em uma relação com o tempo que instaura o impossível. Uma pessoa que ocupava tanto espaço no mundo e na nossa vida, de repente desaparece. De um dia pro outro ela simplesmente passa a não estar mais ali e a gente enfrenta de repente uma ideia até então muito abstrata: A ideia do fim, do pra sempre, do sem volta — mesmo.

Viver o luto é aprender a viver com a falta de um pedaço e se a gente não abre espaço pra essa falta durante o dia, ela vem em forma de sonho e junta-se a fragmentos de coisas guardadas em uma gaveta lá no fundo da gente, misturando fantasia e lembrança ao mesmo tempo.

Viver sem os meus pais é me sentir constantemente incompleta e com a sensação de falta. Pelo menos nos meus sonhos a gente sempre se abraça. O luto é tanto sobre solidão quanto sobre amor. Uma solidão e um amor tão grandes que não cabem nas palavras.

A gente não passa por cima dessa falta, a gente aprende a conviver com ela. Pessoas bem intencionadas às vezes dizem ‘vai passar’ como forma de trazer reconforto, mas a verdade é que não vai passar. Podemos aprender a olhar pra essa falta com coragem e curiosidade, tentando encaixar coisas dentro dessa falta como um bebê que tenta encaixar quadrado num triângulo do quebra-cabeça matemático Montessori, mas passar, não passa.

Muitas vezes essa falta do outro se traduz de forma sutil, como aquela sensação de ter deixado algo importante em casa ao sair pra viajar. Só que ao invés de uma meia, o que falta é um certo preenchimento existencial. Uma coisa um tantinho mais complexa de encontrar. 😬

É comum acharmos que as pessoas só morrem nas outras famílias e não nas nossas, mas o Covid-19 tem mudado isso. Passou-se da hora de quebrar com esse tabu e falarmos sobre a morte de forma mais aberta. Outro dia vi um vídeo da Tathi Lopes, atriz, que perdeu a mãe quando tinha 10 anos, e se diz bem resolvida com isso. Em entrevista para a Júlia Rabello ela conta que estava entre amigos falando de malhar e musculação e um amigo disse ‘minha mãe malha’, Tathi não perdeu a oportunidade e lançou ’e a minha mãe? Só osso!’. Um portal se abriu pra mim naquela hora. Maravilhosa. Chorar a gente já chora, por que não aprender a rir também? Falar de quem já morreu faz bem e não precisa instaurar um climão de tristeza.

A verdade é que no começo do luto existe um acolhimento mais presente. Os amigos escrevem, a família aparece e não faltam coisas pra nos distrair nas primeiras semanas. Depois a vida segue, a morte vira um silêncio e o morto vira data. Você mesmo se diz ‘bola pra frente’, mas a dor, a sensação de deslocamento e a saudade continuam firmes ao longo dos anos. Uns dias a falta ocupa todo espaço do seu dia e outros caminha juntinho de você bem pequenina. Em ambos os dias, é reconfortante ter pessoas compreensivas ao lado, relembrar bons momentos e ver histórias de pessoas que já passaram por isso.

Essas e outras reflexões sobre luto estão sendo alimentadas pelo maravilhoso livro ‘‘A ridícula ideia de nunca mais te ver’ da Rosa Montero. A autora traça a história da Marie Curie — uma mulher fascinante, cientista, que descobriu e mediu a radioatividade, ganhando dois prêmios Nobel: Um de física em 1903 (!) em parceria com seu marido, e outro de química, em 1911, sozinha. A Marie também perdeu o marido e a Rosa (autora) conta sua trajetória costurando diversos assuntos: luto, o lugar da mulher na sociedade, nossa percepção do tempo e a solidão.

Estou no comecinho do livro, mas já recomendo a leitura e deixo aqui um trechinho:

“A primeira coisa que te derruba no luto: a incapacidade de pensar nele e admiti-lo. A ideia simplesmente não entra na sua cabeça. Como é possível que não esteja mais? Aquela pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde foi que se meteu? O cérebro não consegue entender que tenha desaparecido para sempre. E que diabos é sempre? É um conceito anti-humano. Quero dizer, que foge à nossa possibilidade de entendimento. Como assim, não vou vê-lo nunca mais? Nem hoje, nem amanha, nem depois, nem daqui a um ano? É uma realidade inconcebível que a mente rejeita: não vê-lo nunca mais é piada sem graça, uma ideia ridícula.”

Rede de apoio para pessoas em luto:

http://acolhecomamor.com.br/

http://vamosfalarsobreoluto.com.br/

Paris-based brand strategy consultant. 🔥 I write about the new generation of entrepreneurs and the authentic strategies behind their businesses.

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