Atravessando a Crise dos 30 em 2020.

O ano é 2020 e ele não é para novatos. Trata-se de um ano que está conseguindo condensar num espaço de 12 meses: Uma pandemia global sem previsão de desfecho, confinamento, aumento dos índices de ansiedade, aumento da taxa de desemprego, crise econômica, Bolsonaro, emergência climática, Bolsonaro, violência policial e fake news. A avalanche de esterco perfeita para botar qualquer pessoa em crise, independente da idade.

Em paralelo a esse contexto, existe ‘nós’: O grupo de pessoas na curva dos 30, conectando todo esse cenário apocalíptico aos questionamentos comuns a nossa idade. Percebemos que não somos mais tão jovens (oi, ressaca) e que o tempo passa rápido, nos confrontamos às responsabilidades da vida adulta (oi, boletos) e buscamos sentido 👀.

Além disso, para os privilegiados com certa liberdade de escolha, mil perguntas: “O que, lá no fundo, eu sinto que desejo fazer?”, “Filhos, quero tê-los? E se tê-los, como mantê-los?” “Como educá-los à beira de um colapso sócio-ambiental?”, “O que eu busco numa relação amorosa?”, “Qual impacto — além da minha pegada de carbono e três blusinhas made in Bangladesh - eu quero gerar no mundo?”.

Minha crise dos 30 veio aos 32 e chegou juntinha da pandemia. Não dizem que tretas que vem em par? Com certa frequência, me sinto a passageira de um barco (minha vida), com uma bússola desregulada (a direção) e um capitão psicopata me dando ordens sobre como devo pensar (expectativa social). Na curva dos 30, o capitão nos manipula para planejarmos ter filhos, ter estabilidade financeira — suficiente para se endividar e comprar uma casa- , casar com alguém do gênero oposto, se vestir na moda de um jeito autêntico (mas não demais) e esconder os sinais da idade (cremes anti ageings são recomendados a partir dos 20 anos, FYI). A crise dos 32 me convida a pular do barco e a me livrar — pelo menos um pouco — dessa síndrome de estocolmo que há tantos anos me acompanha. E pular do barco, para mim, hoje envolve 3 coisas:

#1 Ir fundo no auto-conhecimento

Quanto mais me conheço, mais me aproximo das coisas que fazem sentido pra mim, encontrando um certo conforto mesmo em momentos de desconforto. Mais me dou conta da profundidade de certos *padrões bad vibes* que eu tenho comigo mesma e com outros, de crenças limitantes e do que me faz vibrar lá no fundo.

E se na geração dos nossos pais, fazer terapia e yoga era algo estranho, de gente hippie ou “com problemas”… Hoje, vivemos um movimento de abertura sobre o autoconhecimento e espiritualidade que é tanto positivo quanto preocupante. Positivo por que mais pessoas resolvem se investigar e tem acesso a ferramentas, enfrentam menos preconceitos e preocupante por conta do crescimento da mercantilização da espiritualidade. Em meio a tantas terapias e práticas querendo nos vender produtos, serviços ou ideias, é preciso olhar atento muita presença para saber em quê ou quem confiar. Facilitadores e mestres são tão importates nesse processo quanto um olhar curioso e analítico.

#2 Ter minhas proprias experiências

A gente acredita muito nos outros, no que os outros dizem. E sem querer podemos acabar nos prendendo ao mito da caverna do platão, vivendo apenas os reflexos da realidade. Achando que a vida é como no Instagram, como nossos pais nos ensinaram, como vimos nos filmes. O reflexo do que os outros acham que é. Pular no mar, nesse caso, é viver experiências por nós mesmos. Avançando mesmo com nossos medos e preconceitos, tomando decisão de estudar depois dos 30 por que é um sonho, trocando de emprego por que não faz mais sentindo ou qualquer outra aventura que pareça impossível a olho nu. Tudo vale. Busque uma rede de apoio, dê um passinho por vez. Foi assim que encarei grandes mudanças. Com apoio e fazendo uma coisa por vez.

#3 Abrir espaço na rotina pra CUIDAR DE MIM

Foi apenas quando eu entendi que um encontro comigo mesma era tão importante quando um encontro com outra pessoa, que eu passei a cuidar de mim com mais frequência. Isso tem a ver com fazer yoga (sem deixar de tomar uma tacinha de vinho ou duas ou três), comer com mais consciência e vegetariano, tirar tempo para dançar, escrever e fazer skin care ouvindo hip-hop durante horas, se eu estiver afim.

Esses momentos sozinha, “não produtivos” e de auto-cuidado, são espaços onde eu abro na minha rotina para ser livre, me expressar, relaxar e deixar fluir. Muitas vezes eles se tornam momentos de ócio criativo, onde surgem ideias e entendimentos.

À medida que a gente aprende os símbolos que rotulam a nossa experiência, mais a gente se reprime tanto física quanto mentalmente.

No final das contas acho que a crise dos 30 não some de um dia a outro. A gente aprende a conviver com ela e se transforma com ela. E como não dá pra voltar atrás, só me resta uma opção: atravessar essa montanha-russa de olhos bem abertos pra ver se pelo menos eu aprendo alguma coisa e sobrevivo até 2021. 💁🏻 Beijos. Bom fim de ano pra você.

Paris-based brand strategy consultant. 🔥 I write about the new generation of entrepreneurs and the authentic strategies behind their businesses.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store