DESABAFO: Tretas de empreender na gringa.

Não satisfeita em trocar o glamuroso mundo das agências de publicidade pela vida de consultora freelancer como metade da minha geração millennial, em 2018 eu tomei a decisão de mudar de país e cavar a oportunidade de trabalhar fora. Pois bem, vim parar… em Paris. Uma cidade barata, com uma língua simples e poucos verbos para aprender a conjugar. A terra do croissant, do metrô lotado, dos queijos deliciosos, dos pombos abusados que atravessam a rua a pé na nossa frente e da arquitetura que me faz sentir muito chic, mesmo quando não tenho um trocado no bolso para tomar um café allongé.

Depois de uma breve e conturbada — quem me conhece sabe o porquê — passagem por uma agência no ano em que eu cheguei, resolvi resgatar o sonho de empreender. No entanto, dessa vez, dando um passo à diante. Por que né, se for pra sonhar, vamos sonhar direito. Não mais afim de ser freelancer, meu desejo foi de lançar uma marca. Uma consultoria onde eu pudesse me envolver em todas as esferas do negócio. Um projeto com o potencial de — um belo dia — se tornar uma empresa maior, com conceito e valores que pudessem inspirar mais pessoas a embarcar nessa aventura de viver sem FGTS comigo.

Eu estaria mentindo se dissesse que empreender é fácil. Se lançar requer planejamento e execução. Sensibilidade para ouvir a intuição, algum tipo de rotina, cara de pau e muito, mas muito networking. O que se tratando de empreender em outro país é ainda mais difícil. Um pouquinho de ingenuidade torna-se extremamente necessário para bater no peito e falar “vou fazer acontecer”.

Treta 1: Networking

Aproveito e inicio esse capítulo já deixando as minhas roupas na entrada: Se até para mim que sou leonina com ascendente em gêmeos e lua em sagitário, que adora entrevistas de emprego e primeiros encontros só pela chance de causar uma boa impressão, fazer networking é complicado, imagina para o resto do mundo?

Contatinhos é difícil, requer alguém que apresente, frequentar os mesmos lugares e uma boa ocasião para conversar. O networking que funciona pede uma troca sincera entre os envolvidos, e geralmente, alguém ou algo em comum que faça a conexão. Requer um pitch de apresentação afinado e muita, mas muita abertura pra improvisar e ser natural também. No Rio de Janeiro, passei anos abrindo portas para as pessoas e tendo pessoas me abrindo portas também, mas em Paris o bagulho é outro. Na França as pessoas são mais reservadas. Educadas, simpáticas, abertas à conexão, mas operando de uma forma diferente, com outros signos, símbolos e hábitos para a gente interpretar. Sempre me pergunto “Como conhecer gente alto astral, afim de colaborar e que agita o segmento de marketing e empreendedorismo, se eu conheço meia dúzia de pessoas que nem da minha área são? Se você tem a resposta, liga pra mim.

Treta 2: Idioma

Parlez-vous français? Oui, pero no mucho.

Bom, na verdade eu falo francês. Cheguei falando um pouco, fiz questão de fazer amigos franceses e de estudar. Ainda assim, escrever e-mails mais formais é complicado e erro constantemente quando falo. Meu cérebro operando em duas línguas simplesmente trava às vezes. Se você também opera em três ou mais idiomas, você sabe do que eu estou falando. Às vezes quero apenas dizer “merci” e penso “thank you, volte sempre”, o que atrasa meu timing de resposta e me faz parecer meio estúpida. Quando na verdade eu apenas tenho um HD linguístico refinado, cheio demais para acompanhar interações sociais. Injusto.

Treta 3: Cultura

Leva um tempo realmente e requer muita força de vontade aprender a cultura de um novo país, e por isso, imagino que as pessoas que se jogam nesse tipo de aventura, sejam naturalmente curiosas, abertas ao perrengue. Lançar uma empresa em outra cultura é um full time job no sentido do aprendizado cultural. Saca um Iphone pra fazer um stories na casa de um francês que você não conhece muito bem? Coió na certa. O cuidado com a imagem privada é bem maior aqui, a linguagem escrita é mais formal do que a oral, em um jantar, por exemplo, o queijo se come logo após o prato principal. Franceses curtem uma boa discussão, em um jantar entre amigos dá para discordar da opinião política da namorada de um amigo. O povo se ataca e depois vai preparar o cafézinho junto na cozinha. É lindo. Eu gostaria de saber como acelerar esse processo de entendimento da cultura. E claro, também do mercado de comunicação e da Indústria Criativa daqui. A França é infinita e tudo é tão diferente do Brasil. Até vou à eventos e converso com as pessoas, mas adoraria encontrar um PDF feito por Deus com todas as respostas às minhas perguntas relacionadas a esse causo. Quem sabe um dia.

Obrigada pela leitura. Merci, thank you, volte sempre.

Paris-based brand strategy consultant. 🔥 I write about the new generation of entrepreneurs and the authentic strategies behind their businesses.

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